Fato: prostituição é inerentemente violenta.

Original em inglês: https://nordicmodelnow.org/facts-about-prostitution/fact-prostitution-is-inherently-violent/

man-running-away2Prostituição é inerentemente violenta porque, por definição, envolve sexo não desejado.

Quando as duas partes de fato querem sexo, ninguém precisa ser pago, porque sexo é uma daquelas circunstâncias em que é a própria recompensa.

Então se uma das partes é paga, implica-se que ela realmente não quer. E fazer sexo sem querer é uma violação da integridade e dignidade de um ser humano. Então temos aqui que, no cerne, a prostituição é uma violência.

Mas a violência não termina aqui.

O cliente não quer que ela simplesmente tolere suas mãos por todo o corpo dela, seu hálito repugnante na face dela, seu suor rançoso contra a pele dela, seu pênis batendo nos orifícios dela.

Não. Ele também quer que ela mostre à ele que ela está gostando. Porque isso é parte do contrato também. O fingimento que ela está gostando. O fingimento que deve ser tão minucioso, que ele quase pode acreditar.

Então ela não apenas tem que suportar a invasão dele em seu corpo e seus locais mais íntimos, mas ela também tem que agir como se estivesse gostando. Isto é uma forma de violência psicológica.

E se ela não conseguir, o fingimento? O que acontece?

Bem, isso é quando ele pode se tornar fisicamente violento. Ou ele pode se tornar fisicamente violento de qualquer maneira, não importa o quanto ela tente fingir. Porque ele pode ser um sádico. Ou estar tendo um dia ruim.

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Os pesquisadores que conduziram um estudo peer-reviewed em nove países entrevistaram 854 pessoas prostituídas, que relataram uma quantidade impressionante de violência física dentro da prostituição. Por exemplo, 64% haviam sido ameaçadas com uma arma, 73% tinham sido agredidas fisicamente, e 57% tinham sido violadas (que, neste contexto, significa sexo não desejado para os quais não foram pagos).

“Eu sou uma sobrevivente. E eu posso dizer com autoridade que o NÃO, o sexo não vale a pena comprar. No processo de vender o meu corpo, eu foi baleada cinco vezes , esfaqueada mais de 13 vezes, espancada até ficar inconsciente várias vezes , tive meu braço e nariz quebrado, tive dois dentes arrancados, perdi um filho que eu nunca vou ver de novo, fui verbalmente abusada, e passei incontáveis dias na cadeia . ”

( Brenda Myers- Powell)

multiple-rape1ptDos 57% (483 pessoas) que tinham sido violadas na prostituição, 41% (286 pessoas) havia sido estupradas na prostituição 6 ou mais vezes. Outros estudos encontraram resultados parecidos e o testemunho de sobreviventes da prostituição conta a mesma história.

Algumas pessoas argumentam que a legalização (ou descriminalização total do comércio do sexo) torna a prostituição mais segura. Mas a verdade é que nada pode fazer a prostituição segura. Assim como a regulação não faz a mulher ficar à salvo de doenças sexualmente transmissíveis, a legalização não faz as mulheres salvo da violência do comprador. Porque a violência é inerente à prostituição. Podemos ver isso nas estatísticas de homicídio. Mulheres prostituídas têm uma taxa extremamente alta de serem assassinadas. Principalmente por clientes e cafetões .

A figura a seguir mostra os números de assassinatos conhecidos de mulheres prostituídas em quatro países europeus, dos quais três (Alemanha, Espanha, Países Baixos ) têm alguma forma de prostituição legalizada e um, Suécia, tem o modelo nórdico.

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Enquanto o modelo nórdico não faz seguro a prostituição, faz reduzir a quantidade de prostituição que ocorre e, portanto, o número de novas mulheres que estão sendo atraídos para ela. O modelo nórdico também oferece rotas para fora para aquelas mulheres incorporada. As estatísticas de homicídio suecas provam de que esta abordagem funciona. Corpos mortos não mentem.

País Abordagem Estatísticas Referências
Suíça Modelo Nórdico 1 assassinato em 16 anos Remembering the murdered women erased by the pro-sex work agenda
Holanda Legalização 127 assassinatos em 30 anos Cold case team identifies possible prostitutes serial killer
Espanha Legalização 31 assassinatos em 5 anos Feminicidio en el sistema prostitucional del Estado español. Víctimas 2010-2015: 31 mujeres asesinadas
Alemanha Legalização 69 assassinatos, 28 tentativas de assassinatos, 2 desaparecimento  em 13 anos Numbers don’t lie / Sex Industry Kills

Visibilidade , História e Tênis. 

Por Carol J. Adams; traduzido por Fabíola Ladeira.

Texto original: Visibility, History, and Tennis Shoes

A figura espectral de uma idosa usando tênis retorna periodicamente para assombrar ativistas dos direitos animais e a teoria. Foi Cleveland Amory, fundado do fundo por animais (mais tarde transformada na Sociedade Humanitária dos Estados Unidos), que era conhecido por dizer “nós não somos senhorinhas usando tênis”. Depois da Marcha pelos animais em 1990, jovens ativistas homens eram citados no Washington Post proclamando a mesma ideia.

 Vamos considerar por um momento esse falso elogio. Uma coisa que está sendo dita é, “antes do resto de nós descobrimos as questões legítimas e importantes sobre a opressão do ser humano dos outros animais, as velinhas já tinham descoberto”. Talvez quando elas começaram a agitação em favor dos animais elas não eram idosas. Recentemente eu li em um tópico de discussão falando sobre a autora da “Politica Sexual da Carne” que disse, “bem ela é velha”.

O que é “velha”de qualquer forma? Algumas culturas pode reverenciar seus membros mais velhos como sábias ou anciã , a velha sábia em termos arquetípicos e pagãos. Eu amo o livro de tributo à Jane Goodall (The Jane Effect: celebrating Jane Goodall) feito para o 80º aniversário. E eu também tenho a sorte que escritores mais jovens e artistas continuam a engajar-se com meus trabalhos. Essa semana eu vi a publicação do “A Arte dos Animais: Quatorze Mulheres Artistas Exploram A Política Sexual da Carne.”


A anciã é a uma parte da trindade mitológica das mulheres (A Deusa Tripla), refletindo as fases da lua, que incluem a moça, e a mãe (não necessariamente literal).

Eu não tinha pensado como essa associação da figura da trindade feminina aplicava-se à mim até uma conversa com Jo e Keri sobre o projeto Unbound

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Carol Adams, em 1975,  no mesmo ano em que seu primeiro artigo sobre feminismo e vegetarianismo foi publicado no The Lesbian Reader. Crédito da foto: Muriel S Adams

Eu tinha 23, uma moça, quando eu percebi a conexão entre feminismo e vegetarianismo, entre comer carne e o mundo patriarcal. No momento que a moça percebeu o que ela queria dizer e como dizer, quinze anos se passaram. Quando soube que meu manuscrito ganhou um prêmio de Estudos de Mulheres e seria publicado, eu era uma mãe, literalmente, tendo acabado de dar luz (o bebê estava comigo na Marcha de 1990)¹ e eu era também uma “mãe” metaforicamente, eu estava na meia-idade, uma produtivo, criativo período, e meu livro culminando toda a teoria que eu tinha “gestado” desde 1974.

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Carol Adams e seu bebê Benjamim na Marcha de 1990 em Washington, com Martin Kheel ao seu lado esquerdo. Foto: Bruce A. Buchanan.

Agora 25 anos depois que o livro foi publicado e 41 anos depois de eu ter tido a primeira ideia, sou a anciã, mais sábia pelos 41 anos de vida e cuidados, e em luto por um mundo que continua a infligir horrendos sofrimentos em outros animais.

Em 2008, Wayne Pacelle, diretor da Sociedade humanitária dos Estados Unidos, apareceu no New York Times. “Nós são somos um bando de idosas usando tênis”, Pacelle disse, parafraseando seu mentor Cleveland Amory, um ativista pelos direitos animais. “Nós estamos de chuteiras”. Com essa citação e esse orador, nós encontramos a masculinidade afirmada para o movimento animal de três formas – o orador, a negação da mulher (idosa), e o futebol ou associação com esportes em relação aos tênis. Foi tudo estruturado por representação e um certo tipo de voz.

A questão da masculinidade, entra na política do movimento animal em todos os tipos de níveis, e não apenas da maneira que é discutida sobre idosas e tênis. Nós podíamos encontra nas tentativas dos filósofos Peter Singer e Tom Regan para articular teorias que rejeitam emoções ou simpatia como uma legítima base para a teoria ética sobre tratamento animal. Quando a definição presente de “humano” é o que a masculinidade representa, e a racionalidade é uma dessas qualidade dessa masculinidade, então a mulheres representa o que não tem valor – as características de ser fêmea², e o que isso está associada: o corpo, emoções e animais. E se parte da resistência em reconhecer a excepcionalidade humana (a ideia que humanos são diferentes e melhores que outros animais) é associação mais próxima entre nossa diferença entre humanidade e masculinidade?

Memórias históricas são cheias e instáveis, influenciadas por esteriótipos, incluindo um rígido mas falso binarismo de gênero que privilegia homens e suas palavras e protegem a “masculinidade”. E então, nós reivindicamos “pais” mas não mães. A origem do ativismo animal mais frequentemente dita é a que Peter Singer é o pai do movimento contemporâneo por causa do seu livro de 1976, Animal Liberation. Essa reivindicação ignora a quantidade significativa de raízes e trabalho analítico que procedeu a aparição do livro de Singer. A bem conhecida advogada dos animais Kim Stallwood data o começo do movimento contemporâneo dos direitos animais em 1965 com o texto de Brigid Brophy no The Sunday Times, “The Rights of Animals”. Eu colocaria o início no ano anterior com a publicação do “Animal Machines” da Rith Harrison.

De qualquer maneira é uma década antes da publicação do “Libertação Animal”. Datando o movimento animal moderno a partir do livro do Singer, mulheres (Harrison e Bronphy entre outras” são perdidas. Em adição, a preocupação das feministas anteriores com os outros animais podem ser encontrados em escritos de 1972-1975, e são desprezados.

Se traçarmos o movimento de libertação animal apenas a partir do livro do Singer, o que estamos perdendo não é somente as vozes das mulheres, mas o papel do feminismo e especialmente ecofeminismo na criação de uma teoria interseccional que reconhece as conexões entre opressões. (Lori Gruen e eu mostramos uma história alternativa no capítulo “Groundwork” em “Ecofeminismo: Intersecção feminista com outros animais e a Terra.)

O que acontece quando um grupo que é supostamente para ser invisível tenta fazer as questões animais visíveis? O que acontece quando velinhas trabalham para dar um lugar conceitual para os animais? E se ao redor do mundo, nós encontramos mulheres ativistas simultaneamente desestabilizando as noções de masculinidade e a usabilidade de outros animais? E se perguntarmos sobre suas histórias? Talvez a ideia da ‘Deusa Tripla’ e suas diferentes fases, a moça, a mãe e a anciã se aplicariam, ou talvez existem múltiplos modelos para nós aplicarmos.

Quando eu comecei com o ativismo animais eu não era uma velinha. Mas, a cada ano eu chego perto de ser uma. (E quando alguém se oferece para carregar minhas compras veganas até o meu carro eu me pergunto se terei chegado a essa fase). Porque o movimento está tão ansioso em suplantar as senhorinhas? Quando ninguém se importava, eu posso lhes dizer, as velinhas se importavam.

 Nós sabemos que o movimento anti-vivissecção britânico do século 19 teriam desaparecido se não fossem pelas mulheres. Mulheres ainda constituem a maioria das ativistas dos direitos animais. Você começa a trabalhar quando você está no final da sua adolescência ou na casa dos 20 anos e, antes que você perceba, alguém está carregando as suas compras para você.

Seria ótimo não ser uma velinha trabalhando para os animais, mas isso está além das minhas mãos. Vamos então amarrar nossos tênis e continuar em frente!

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imagem: Vance Lehmkul

Notas da tradutora:

¹: Essa marcha ficou conhecida como a “Primeira Marcha pelos animais em Washington”, onde teve entre 25.000 a 50.000 participantes, se juntaram na capital dos EUA para clamar pelos direitos animai. Ocorreu em Junho de 1990.

²: femaleness: é uma palavra que não tem uma tradução literal para o português, mas difere-se de feminilidade. Enquanto feminilidade são conjuntos de esteriótipos impostos às mulheres, femaleness são características inerentes ao fato de sermos fêmeas.

Carol J Adams é a autora do livro a Política Sexual da Carne: Uma teoria feminista-vegana, A Pornografia da Carne e Woman-battering . Ela é ativista pelo feminismo e pelos animais desde dos anos 70. E possui uma vasta publicação de livros e artigos sobre os dois assuntos. Em 2011 foi homenageada no Animal rights Hall of Fame.

O retrocesso do aborto legal e dos direitos reprodutivos nos EUA.

No dia 30 de Junho de 2014 a Suprema Corte emitiu uma decisão que estabelece precedente para empresas se negarem a pagar seguros de saúde que incluam remédios para controle de natalidade (foram 5 votos, todos homens, contra 4 votos, incluindo 3 mulheres). A decisão se refere ao caso de uma empresa chamada “Hobby Lobby”, conhecida por seu forte cristianismo, a ponto de não vender artigos de comemorações judaicas. A empresa entrou com um processo com o objetivo de ser liberada da responsabilidade do pagamento de remédios de controle de natalidade para suas contratadas através do seguro saúde. Agora, empresas podem se negar a cobrir qualquer tipo de controle de natalidade se apresentarem argumentações sobre sua religião. Nos EUA essa decisão é colocada na mídia como uma “perda” para Obama e seu programa de saúde pública. É o velho debate entre liberais e conservadores. A cobertura da mídia apaga as verdadeiras vítimas dessa decisão: as mulheres. Não é mencionado o fato de que as mulheres estão tendo seus direitos reprodutivos violados.
Essa decisão não é atípica. No atual contexto estadunidense, as mulheres vem enfrentando um enorme retrocesso em relação a seus direitos reprodutivos.

Imagem inline 1Nos Estados Unidos, o aborto é legal desde 1973, e o movimento auto-intitulado “pró-vida” tenta reverter essa decisão desde então. As ações mais recentes desses conservadores anti-aborto têm visado dificultar o acesso das mulheres às clínicas de aborto legal, através protestos às vezes violentos na porta de clínicas e até mesmo ameaças de morte aos médicos que realizam a prática, até mesmo a eliminação de clínicas de aborto legal através de diversas estratégias para torná-las inviáveis financeiramente e fazer com que fechem as portas.

A mais nova estratégia dos conservadores para fazer as clínicas fecharem é pressionar os Estados para passar leis que exigem que para continuar oferecendo aborto, as clínicas tenham que ter status de hospital, um requerimento exagerado visto que essas mesmas clínicas operam há décadas oferecendo abortos seguros para mulheres, o que faz com que sejam necessários investimentos massivos em infraestrutura e licenças, que muitas clínicas não têm recursos para fazer, o que está obrigando muitas a fechar ou parar de oferecer o procedimento. Muitas dessas clínicas também oferecem outros serviços relacionados à saúde da mulher, como prevenção a câncer de mama e útero.

Primeiro é preciso entender também como são essas clínica. São locais que poderiam ser comparados a consultórios particulares de médicos, não tem o mesmo aparato que hospitais ou centros médicos, mas fazem um atendimento adequado. O aborto legalizado nos Estados Unidos é feito com o uso de comprimidos até a 12ª semana, onde a mulher faz o procedimento em casa, e tem um auxílio por telefone ou vídeo-conferência por um médico dessas clínicas. Após as 12 semanas, é feito um procedimento cirúrgico mínimo, onde também não é necessário grandes aparelhagens, mas há necessidade de médicos acompanhando.

sala de procedimento de uma clinica de aborto legal no estado to Texas. Foto: Jennifer Whitney for The New York Times
Sala de procedimento de uma clínica de aborto legal no estado do Texas. foto: Jennifer Whitney para The New York Times

No ano de 2013, 87 clínicas de aborto foram fechadas, a grande maioria por causa dessas leis restritivas. Comparando com o ano anterior é uma queda de 12%.

 

 

 

 

 

O mapa abaixo mostra a quantidade de clínicas que foram fechadas desde que essas leis começaram a passar nos Estados:

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Associação Médica e a Associação de Ginecologistas o Obstetras dos EUA foram contra essas leis, dizendo que não há necessidade de hospitais para a realização do aborto, que as clínicas conseguem atender com segurança as mulheres que as procuram, o que mostra que essas leis não têm como motivação a segurança das mulheres, e sim dificultar o acesso a aborto legal e seguro.

Se as associações médicas não apoiam esse tipo de legislação, então quem apoia? Os religiosos. A atuação dos religiosos tem sido forte, e eles estão comemorando a diminuição do número de clínicas como vítoria para os “pró-vida”.

 Qual é o resultado disso? Os abortos ilegais aumentaram. Ao se fechar clínicas pequenas e em grande número se diminui o acesso das mulheres ao aborto legal e seguro. Principalmente as pobres, pois o deslocamento gera um gasto absurdo que muitas mulheres não têm como pagar. Outro ponto é que o custo do procedimento aumenta quando se passa ser feito em hospitais, novamente impedindo o acesso das mulheres mais pobres ao serviço que deveria ser garantido, visto que todas as mulheres têm direito a realizar aborto legalmente nos EUA. Lembrando que lá não existe sistema público e nem todos os cidadãos têm um plano de saúde, ou seja: muitos gastos são arcados por completo pelos próprios. Uma mulher que tem necessidade de aborto nem sempre tem a condição financeira ou emocional para uma longa viagem cruzando o estado, ou até mesmo ir para outro estado para realizar o procedimento. Se ela não tiver a cobertura do plano de saúde que inclua o controle de natalidade, ela pode chegar a gastar $600 dólares anuais com pílula, que equivaleria cerca de compras de comida por 6 semanas. Os ataques também tiveram como alvo as clínicas de planejamento familiar, impedindo que sejam incluídos também no programa de saúde, ou Obamacare.

A estratégia dos conservadores é dificultar o máximo possível o acesso das mulheres ao aborto, de modo que não mais importe se o aborto é legalizado ou não. O poder de uma bancada religiosa e conservadora é tão forte que tem conseguido apagar, além das vozes das feministas, as próprias recomendações das associações médicas. O obscurantismo religioso novamente impede um avanço na luta por direitos básicos da mulher e sua saúde: em 2012 -2013 houve mais retrocessos dos direitos reprodutivos das mulheres que em toda a década anterior.

 

Nos EUA úteros sofrem mais regulamentação que armas
Nos EUA, úteros são mais regulados que armas.

No dia 8 de Julho de 2013 saiu a notícia que cerca de 150 mulheres presas no estado da Califórnia foram esterilizadas sem consentimento entre os anos de 2005 a 2011. O procedimento teria de passar pela autorização da paciente, junto a uma testemunha e depois autorização médica em todos os estágios, mas não foi isso que aconteceu. As mulheres eram forçadas a aceitar a esterilização através de coerção moral a fazer a cirurgia. Uma das presas disse aos investigadores que, assim que o médico James Heinrich descobriu que ela era mãe de 6 filhos, ele começou a forçá-la a fazer o procedimento. O médico alegou que suas cirurgias ilegais salvaram ao governo uma enorme quantia de dinheiro pois suas pacientes involuntárias estavam mais propensas a ter “crianças não planejadas a partir do momento em que elas procriariam mais”.  Essa mentalidade é inclusive endossada pelo Centro de Saúde Prisional da Califórnia, que sabia da existência das esterilizações.

Mas a briga contra as mulheres se adentra em todas as direções, no dia 26 de Junho de 2014 a Suprema Corte americana derrubou uma lei que impedia protestos na frente de clínicas de aborto. Tal lei foi aprovada para garantir a segurança das mulheres, que frequentariam as clínicas de assédios de conservadores anti-aborto, e protestos mais agressivos contra esses locais. A lei caiu por unanimidade de 9 juízes, todos homens. O governo de Obama apoiava a lei e lamentou a decisão da Suprema Corte. Logo após ser revogada grupos “pró-vida” fizeram seus protestos e assediaram mulheres que entravam nas clínicas .  Diante da gravidade dessa revogação tem de ser trazida à lembrança dos americanos, pois no ano de 1993 durante um protesto contra o aborto em frente a uma clínica um médico que trabalhava nela foi morto à tiros. Era também comum clínicas serem atacadas e vandalizadas por religioso e conservadores, além de protestos frequentes na frente das casas particulares dos médicos e donos das clínicas. Desde 1977 foram 11 mortes e mais de 200 ataques com bombas aos centros de abortos de acordo com a National Abortion Foundation. Os extremistas anti-aborto chegaram a conclusão de que assassinar os trabalhadores dessas clínicas é a única maneira de para o aborto.

Em 2015 o ataque contra o aborto e as mulheres foi agressivo, quase 400 leis anti-aborto foram colocadas para votação em todos os estados do país! Entre as leis, querem que informações falsas sejam passadas para as mulheres, como a dor que o feto sentiria ao ser abortado, e que mulheres teriam problemas mentais após o procedimento.
Em Wisconsin e Virginia proibiram o aborto após 20 semanas, no Arkansas uma lei proibiu o auxílio por telefone e vídeo-conferência entre médicos e mulheres no uso do medicamento, essa lei afeta especialmente as mulheres das zonas rurais, na quais não teriam condições financeiras de ir até a cidade para ter o auxílio. E lembrando que o medicamento usado para o aborto é relativamente simples, não exige internação, apenas o uso de comprimidos e repouso. Mas as mulheres precisam saber como se usa esse medicamento para que ele tenha a sua eficácia. Outras leis incluem a necessidade de um médico que tenha privilégios em certos hospitais, dificultado mais ainda o acesso das mulheres aos procedimentos, e a restrição ao aborto para menores de 18 anos, que precisariam da permissão dos pais, e também de um aval judicial, onde se decidiria se a menina teria maturidade ou não para fazer um aborto!

No estado do Kansas passou uma lei onde deve ser dizer “criança não nascida” (unborn child ), ao invés de feto. Sabemos como a linguagem importa, e mentiras são usadas constantemente para manipular as emoções das mulheres que querem abortar, para que elas desistam. No Tenesse uma emenda na constituição estadual que diz que o estado não protege o direito ao aborto e nem financiaria as clínicas de aborto, no mesmo estado uma mulher que tentou induzir um aborto em sua banheiro na 24ª semana foi presa e enfrenta uma acusação de assassinato de primeiro grau. Há também leis que obrigam as clínicas a terem pelo menos 50 cirurgias de aborto por ano, assim como hospitais. Essa lei é feita para que as clínicas sejam enquadradas como hospitais e assim terem gastos maiores para se adequar e que leva à falência e fechamento de clínicas.

No final de Novembro de 2015 vimos mais um ataque à uma clínica de aborto legal, no estado do Colorado, onde um atirador entrou na clínica e abriu fogo, matando 3 e ferindo 9. O atirador é um homem, branco de 57 anos e se declarou culpado e que é um “guerreiro para [proteger] os bebês”. Esse ataque acirrou mais ainda o debate, os políticos conservadores, atiçados pelos movimento Tea Party, clamavam que as clínicas de planejamento familiar estariam vendendo os tecidos fetais e partes de “crianças”. Um grupo anti-aborto fez um vídeo que viralizou, onde “mostrava” que as clínicas lucravam ilegalmente as vendas. A ultima notícia é que 2 pessoas anti-aborto foram indiciadas pelos vídeos falsos, a acusação é alteração de dados do governo e manipulação de imagens. A clínica de planejamento familiar afetada pelos vídeos já entrou também com um processo contra os autores.

O ano de 2015 teve poucos ganhos para as mulheres estadunidenses, e restritas à questão de métodos contraceptivos apenas. Na opinião das feministas americanas 2016 pode ser ainda pior, com as eleições em vista e os candidatos dos partidos nas pré-eleições o assunto será mais ainda atacado.

Nesse momento tão difícil para as mulheres dos EUA, queremos lembrar novamente da Senadora Wendy Davis, que por 13 horas sem descanso falou sobre o aborto, e lutou para que não houvesse retrocesso no Texas. A força dessa mulher, e de todas que a ajudaram nesse processo, deve nos inspirar para que a nossa luta aqui no Brasil seja avançada e para que possamos apoiar a luta feminista dos EUA contra essa violação dos seus direitos reprodutivos. Lembrando que muitas de nossas leis e políticas são influências diretas dos acontecimentos nos Estados Unidos, principalmente dos conservadores. As leis anti-aborto brasileiras se inspiram nas leis americanas também.

Precisamos discutir os desdobramentos da política estadunidense por que o retrocesso dos direitos das mulheres é uma tendência mundial. Aborto é uma das poucas pautas que unifica o movimento feminista, e de extrema relevância para nós feministas radicais. A luta é por todas as mulheres.

Falando sobre aborto

Mais um texto publicado no facebook, no dia 13 de março de 2015. 

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– Essa foto de um quarto (1), é de uma clínica de aborto nos EUA. Viu como é simples e sem a necessidade de imensas aparelhagens?!
Não é um procedimento cirúrgico de alto risco, QUANDO É FEITO LEGALMENTE. Aliás segundo uma reportagem(2) o aborto legal é mais seguro que dar a luz nos EUA.

10996474_807896339257483_7570795234306220814_n– A segunda foto é de um aborto, um procedimento sendo realizado. Uma mulher fotografou seu aborto e criou a página “This is my abortion”
A intenção da mulher é desmistificar o que os religiosos mostram em relação ao aborto. Não há “criancinha” nenhuma sendo morta, expelida ou jogada. O aborto dentro das 12 semanas de gestação tem essa forma.

Algo que já faz um tempo que percebi, é que o ataque ao aborto está ocorrendo no mundo inteiro. Locais como EUA e Europa onde tem o aborto legalizado estão sofrendo retrocessos com leis que restringem o acesso, principalmente para as mulheres pobres. E clínicas de aborto sendo fechadas, e funcionários que lá trabalham sofrendo ameaças.
O ataque conservador é mundial. No Brasil tem suas peculiaridades sim, mas o ataque ao aborto está sendo mundial.

Precisamos continuar pautando e falando sobre o aborto, precisamos conversar com as mulheres e mostrar as verdades. E precisamos combater esse obscurantismo religioso que sonda o Brasil e o mundo.

1- http://www.nytimes.com/…/citing-new-texas-rules-abortion-pr…

2- http://www.reuters.com/…/…/us-abortion-idUSTRE80M2BS20120123

 

Os vários ataques que o feminismo atual sofre.

Esse pequeno texto eu publiquei no meu facebook depois de ver o texto da Folha. Eu publico aqui apenas para não se perder, pois a rede social é feita para esquecermos rapidamente de tudo que se passa, e acredito que esse assunto não é para ser esquecido.

Postado dia 12 de março de 2015

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Texto publicado na Folha de São Paulo online.

Nem faz muito tempo a mídia mainstream falava que ser feminista é coisa de lésbica peluda e de satanismo (como se isso fosse ruim) , a propaganda baseada nessas questões tinha como objetivo fazer com que mulheres tivessem medo de se organizar.
Mas agora não dá mais para falar mal do feminismo, agora Beyoncé, Emma Watson, Pitty entre outras são, e não dá para demoniza-las.

Mas a politica capitalista patriarcal liberal sempre dá um jeito de evoluir e tentar destruir o movimento. Então, para isso, pega-se um movimento que sempre foi feito por mulheres e para mulheres e agora forçam a entrada de homens nesse movimento. Através da propaganda midiática, que os homens tem controle, fazem com que a ideia de libertação das mulheres, que a segunda onda (não apenas o feminismo radical) clamava se transforme em “igualdade de gêneros”, ou seja reformismo.

Agora todos tem de dar as mãos e lutar juntos contra o machismo, e não o patriarcado. Os nossos discursos de que os homens são os agentes do patriarcado e da existência da violência masculina vira apenas “violência machista”. E assim lutamos contra uma nuvem preta que não tem forma. E assim lutamos contra nada. E o sistema continua.

“O feminismo precisa de homens” diz o texto da folha. Não, nunca precisou. Precisa agora para fazer ele perder o foco, para que os HOMENS possam nos estuprar, fragilizar e criar discórdia. O conhecimento dos homens não nos ajuda em nada, podemos e estamos criando nosso conhecimentos, a partir de nossas lutas e experiências. Estamos com nossas forças abrindo os espaços que os HOMENS nos negaram sempre, e continuarão negando.

Aquelas lésbicas peludas ainda existem, e são as que realmente pautam o feminismo como luta de libertação, e essas os homens continuam demonizando. Agora de maneiras diferentes: misandricas, femistas, sexistas, intolerantes, feminazis e até TERF.
As mulheres que sempre entenderam que o espaço de luta feminista precisa ser exclusivo são xingadas na tentativa de nos excluir da luta, pq nós resistimos com a verdadeira pauta feminista.

Aí entram os homens, fazendo textos, vem a ONU (que é liberal) e usa a Emma Watson como marionete, porque se atacarmos o discurso estaremos atacando ela (segundo os homens no poder). Aí vem uma professora na UFMG e numa entrevista cita que o feminismo não é mais coisa de “lésbica peluda”. E que todos podem entrar. E assim se vai jogando pedras numa luta que ainda resiste na base de muito esforço.

Nosso esforço é conseguir ganhos numa época onde até as mulheres que se dizem feministas estão contra as feministas. O controle masculino continua forte e criando novas maneiras de nos atacar. Nos fazem sentir mal pois agora além de ouvirmos os usuais xingos de homens, as mulheres estão ficando contra nós,e não é por culpa delas, mas sim da manipulação masculina.
Mas a resistência, principalmente a organizada em coletivas, tem de continuar e vai continuar.

Mulheres pagam mais que os homens pelo mesmo produto.

Original em inglês Tradução: Fabíola Ladeira

O Departamento de Assuntos do Consumidor (DCA) da cidade de Nova York é responsável pela manutenção de um mercado justo e vibrante. Para este fim, DCA realizou um estudo sobre preço sobre os produtos divididos por gênero na cidade, em vários setores. As indústrias estudadas para este relatório incluem: brinquedos e acessórios, roupas infantis, roupas de adultos, produtos de cuidados pessoais e produtos de casa e saúde para idosos. Este estudo reflete a vida de consumidor médio, desde bebês à idosos, proporcionando um olhar sobre as experiências dos consumidores de todas as idades.

Foram comparados cerca de 800 produtos com versões femininas, de mais de 90 marcas vendidas em 24 lojas varejistas de New York, tanto online quanto lojas físicas.

Descobertas 

Em média, em todas as cinco indústrias, DCA descobriu que produtos femininos custam 7% mais do que os produtos semelhantes para homens. Especificamente:

  • 7% mais por brinquedos e acessórios
  • 4% mais para a roupa das crianças
  •  8% mais por roupas de adultos
  • 13% em produtos de cuidados pessoais
  • 8% mais para produtos de casa e saúde para idosos

Em 30, das 35 categorias analisadas, os produtos para os consumidores do sexo feminino foram mais caros do que aqueles para os consumidores do sexo masculino. No total, DCA descobriu que produtos femininos custam a mais 42% das vezes, enquanto produtos masculinos custam mais 18%.

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Diferença entre o preço de um patinente: para garotos o custo é de $24.99, para garotas o custo é de $49.99.

Tabela da frequência da disparidade de preços

www1.nyc.gov assets dca downloads pdf partners Study of Gender Pricing in NYC.pdf

Impacto

Ao longo da vida de uma mulher, o impacto financeiro destas disparidades de preços com base no gênero é significativo. Em 1994, o Estado da Califórnia estudou a questão dos preços com base no gênero e estima-se que as mulheres efetivamente pagam um “imposto de gênero” anual de aproximadamente $ 1.351 dólares para os mesmos serviços que os homens.

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A blusa masculina custa $48, já a blusa feminina vendida como “blusa do namorado” custa $78.

Enquanto estudo do DCA não estimar um impacto financeiro anual de preços de bens de gênero, os resultados deste estudo sugerem que as mulheres estão pagando milhares de dólares a mais ao longo de suas vidas para comprar produtos semelhantes ao dos homens.

Embora possa haver motivos legítimos atrás de alguma parte das discrepâncias de preços descobertos neste estudo, os preços mais elevados são principalmente inevitáveis para as mulheres. Os consumidores individuais não têm controle sobre os têxteis ou os ingredientes utilizados nos produtos comercializados para eles, e devem fazer escolhas de compra com base apenas no que está disponível no mercado. Como tal, as escolhas feitas por fabricantes e retalhistas resultam em um maior encargo financeiro para os consumidores do sexo feminino do que para os consumidores do sexo masculino.

Estudo completo em pdf em inglês aqui.

 

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